Especial Nicolinas II: Pregão 2007

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O Pregão voltou a sair às ruas de Guimarães. Este ano, sob a «pena« de Carlos Machado, o texto foi dedicado a Martins de Aldão e a Martins Faria, dois elementos ligados às Nicolinas recentemente falecidos. Esta era a referência no manuscrito distribuído no dia da leitura de um dos números mais aguardados das Festas. 

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PREGÃO DE S.NICOLAU 2007 - versão integral

Bem-vindo patrono, Nicolau meu santo
A terra iluminada a ti aqui se rende
Cumprindo a tradição e sem quebranto
Sem rasgar a capa que o estudante estende.
Não cedo às forças que te tentam abrandar
Terna cidade, tua própria expansão
Sequer temo raios do forte trovejar
Pois tu sempre serás O Berço da Nação.

Nestes versos te trago novos ventos
Novo alento e outra história pr´a contar,
Que se roam insanos e ciumentos
Os que lá por Braga ouço a suspirar.
Ostento a Alma e a memória Lusa
Enquanto Baco com vinho me aliciar
E meus caros, que se quilhe a Musa
Que nem se esforça sequer por me inspirar!

Os ditos do Pregão são novo mandamento
O décimo primeiro da nossa profecia
Que ordena desde já um bruto batimento
No futrica que vaidoso por aí se anuncia.
Erguemos nesta data este nosso estandarte
Que orgulhosamente elevamos desfraldado
Para que se saiba até no longínquo Marte
Que a Academia tem aqui seu reinado.

Toda a verdade será neste acto revelada
E que fique exarado para memória
Que O Berço, esta nossa terra amada,
Não esconde qualquer grotesca história.
O que recito em jeito de desenrasque
É vinho doutra pipa, de nova adega
Quem não gostar se quiser que enfrasque
Que a tourada avança, agora com nova pega...


Nesta cidade todos querem projectar
Espaços novos ao trânsito inibidos
Dizem os velhos que estão a arquitectar
Novos rumos com transportes esquecidos.
Talvez não retirem os bancos do lazer
Donde se vai a sombra necessária
Do sol quente que não pára d’aquecer
Em nova zona ambiental deficitária.

Onde vão colocar as árvores majestosas
Tão características do antigo Toural?
Esqueçam de vez essas sebes pirosas
Concebam antes uma praça magistral!
Essa traça recorda um longo deserto
Não temos bossas para tanto aguentar
Queremos visão, um projecto esperto
Um oásis para podermos descansar.

A Alameda querem pôr num frangalho
O trânsito daí também vão banir
Nada escapou. As ruas serão retalho
Onde não será possível conduzir!
A Avenida do nosso Afonso Henriques
Querem ver por um túnel trespassada
Oh Magalhães, querido não te estiques
Olha que ele corria mouros à chapada.

Será culpa tua Condessa Mumadona?
Que as costas tens viradas à cidade,
P’las andanças ainda perdes a poltrona
Onde se jura falar sempre a verdade.
Qualquer dia também serás mudada
Pois há o novo tribunal de Creixomil
Essa malta do Governo será aí julgada
E p´lo jeito pára o bólide p’ra Vermil.

Nessa loucura nossa feira desterraram
Reconhecida e de nobres tradições
Queriam copiar a bíblia e já erraram
Meteram no templo os vendilhões!
Sentirão a malta mais controlada
Por Santa Clara, senhora conventual,
Veremos se a Vereação já animada
Não levará “entulho” para o Natal.

As feiras estão em crise. A ASAE culpada
Pôs cobro a outra feira, a Feira do Comer.
Pois então que venha uma feira abençoada
De copo já erguido brindo à Feira do Beber.
E haja quem me ature a beber sem manjar
E queira segurar-me a mim e à “carroça”.
Eu que os veja por aí, a ASAE a cirandar
Que, no cortiço, lhes faço uma funda mossa.

E o S. Mamede será que vai reabrir?
Ou é da cultura um novo golpe teatral
Eu cá sou teimoso e sei que aí vou curtir
Em dois mil e doze, um grande recital.
E virão tenores, travestis, Zés-Pereira
Para o médico, p´ro juiz ou sapateiro
Vamos puxar pela guita... E de que maneira
Vamos de papillon ou fato domingueiro.

Da revista cara e do jornal de taberna
Virá muita gente, muita malta VIP
Tudo muito feliz, tudo dando à perna
Talvez até curtindo uma enorme trip.
Pregão é Cultura! Da pouca que se faz
Neste nosso burgo que será a Capital
E nem sequer passa pela tola a Satanás
Que o Pregão não tenha lá um pedestal.

Mas há outro espectáculo: o novo mercado
Belo, desviado e complicado de chegar
Diz o povo e garante até o mais versado
Que quem tiver artrose vai ter que penar.
Compromete o buraco essa caminhada
Do novo, do velho, do rapaz sem sorte,
Não merecem os ossos sequer tal porrada
Nem os nossos carros lá encontrar a morte!

Abundam buracos aqui por todo o lado
Também os recordo nas várias freguesias
Que são numerosas e de amargo fado
Estão cheias de problemas e de arritmias!
São vítimas do Paço, do esquecimento
E crescem ao batuque das empreitadas
Aumentando sempre o nível do cimento
Sem ordem, sem honra vão as desgraçadas...

A polícia do burgo foi mais autorizada
Patrulha o concelho de cabeça erguida
Mas de vez em quando a malta animada
Faz-lhes lembrar quão triste é esta vida!
Se tens um tasco aberto sem licença
Porque é muito chata e cara a papeleta
Lá te bate à porta com uma lata imensa
Um senhor de cinzento, usando fardeta.

Aperaltem-se beatas na Igreja rezando
Co’a video-vigilância todo santo está seguro
Até no altar santo o padre vai brilhando
E sonha fazer na tv carreira com futuro!
São reflexos do canal que está a nascer
Guimarães vai estar sempre na ribalta,
Estudante fica na escola, ainda te vão conhecer
P’la tv a beber o tintol que te faz falta.

Alegra-te Nicolau, Guimarães é teu bazar
E se espaço houver, estaciona tuas renas
Pois certamente tudo cá irás comprar
E se vieres cedo nem perdes as Novenas!
Compras em Azurém, Urgeses ou Silvares
Ou vai até Brito que já não ficas mal
Agora são outros ventos, novos ares
Foi posto um fim ao comércio tradicional.

Novo orçamento! São mais de cem milhões
São tantos os zeros que nem imaginas
Pudéssemos nós usar d’alguns tostões
E todo o santo dia seriam Nicolinas.
E dizem ainda que nada há para gastar
À massa o que fazem se é tanta assim?
Eu cá ando pobre, a energia é cavalar,
Se der para um Porsche, dêem-mo a mim.

Preparado o lugar para o Monumento
Do Nicolino que é bem do seu agrado
À beira do Pinheiro terá seu assento
Que bem ficarão juntos, lado a lado.
Falta colocá-lo. Nisso sou como Tomé
Preciso de tocar nele para acreditar
Diga, Magalhães, em si tenho alguma fé,
Quando o teremos pronto a inaugurar?

De volta à primeira, bem-vindo Vitória
Adeus ó segunda, até nunca mais
Para pesadelo já chega a memória
De bonitas terras e ignotos locais!
De longe, veio então, um senhor “C’ajuda”
P’la mão do povo veio “Milo” Macedo
Até parece que nos saiu a taluda
Venha quem vier, ninguém mete medo.

Na descida que nem tudo se perdeu
A cidade uniu-se! Mostrou seu fervor
A união faz a força e o Vitória cresceu,
E com ele a fé do adepto sofredor.
Agora que aprendemos tão grande lição,
Vamos lá mostrar ao Mundo a cidade
Calem-se assobios e toda a vil expressão
Qu´aquela segunda não deixa saudade!

Vira o mote e também a disposição
Porque assim também eu Governo
Nos impostos sentimos dura mão
Neste quente e antecipado Inferno.
O Vermelho já alastra na bandeira
É símbolo de satânico progresso
Nossa Economia é má, é falheira
E não sei sequer se tem regresso.

Aumentam as filas de desempregados
Culpa de dolosos gerentes que encenam
Num Estado desigual que apoia abonados
Só uma velocidade (p´ra trás) engrenam.
Mas emprego e trabalho confundem a gente
Por isso, nas filas, muitos fogem do labor
No Centro de Emprego o inscrito mente
Porque na aldrabice é sempre bom actor.

Nossa criançada continua fustigada
Por um ensino que teima em lhe fugir
Culpa da ministra que é só de fachada
E ninguém se interessa em substituir.
Entretanto vai sendo manipulado o puto
Sem educação e sem aulas decentes
O Ensino lá vai de enegrecido luto
Nem os professores se quedam contentes.

Coitado do “prof” se for levado às juntas
Levadas por suprema, alta raça animal
Leccionarão em pouco tempo até defuntas
Pela mão de uma qualquer junta bestial
O tempo está a mudar, é bem verdade
O professor já nem precisa de estar são
Não temam o futuro ou sintam saudade
Professores só se perdem os que já lá vão!

A nossa justiça dá sempre que falar
Da Casa Pia ainda não vemos solução
Casos curtos não servem! Há que prolongar!
Em longevidade, quem será campeão?
São muitos candidatos. Papel às pilhas
Corredores com pó matando o oficial
Leiam os Governantes por outras cartilhas
Ouçam alto o Procurador de Portugal.

Que “jeitoso” é o novo processo penal
Que liberta os criminosos culpados,
A justiça precisava de limpeza geral
Agora só talvez se forem amnistiados
Podemos prevaricar sem preocupação
Falsificar ou mudar de identidade
A justiça é cega e não garante solução
À vítima que demanda a busca da verdade!


Atenção estudantada! Há olhos para ver
Mas não para certos ditos “jornaleiros”
Que na ânsia de falar, na ânsia de vender
Criam a notícia tornando-se... parteiros.
Pena não se dar já o uso de outrora
A certos jornais que deviam estar de molho
Pois podem crer que muitos a esta hora
Estariam a ser vistos... mas por outro olho!

Lá vamos navegando, ao leme o engenheiro,
Cujo diploma foi alvo de sindicância
Viu-se “à rasca” com todo aquele basqueiro,
Mas o M.P. pôs fim à implicância
O “papel” é legal, mas feito ao domingo
Elaborado até no fim da eucaristia
Finou-se a polémica sem qualquer respingo
Mas sempre ficando um pouco de azia.

É um admirável, respeitável Mundo Novo
Em que já não há sequer o curso médio
Somos todos nobres, não há gente do povo
O que gera sempre, entre nós, algum tédio.
Vivemos na ilusão, num terreal paraíso
E os papás anseiam quando o filho for maior
Ser rapaz cordato e munido de juízo,
Até na culinária se forma um doutor.

Quase que se ia o comboio Europeu
Ó Felipão, salvaste a grande enrascada
O Perestrelo diria “qué qué isso ó meu?”
Se visse a substituição feita para nada.
Sorte a tua: os finlandeses falharam
E até tiveram mesmo algum azar
Mas ainda bem que não te chatearam
Senão outro gajo terias de esmurrar.


Agora sobre os bombos vossas forças soltem
De vossas caixas saia um poderoso rufar
Que os velhos ouçam e assim voltem
Que esta tradição é para preservar
A constante revolta seja hoje ouvida
Através do Nicolino sempre consciente
P’las ruas da cidade terna e querida
Tomado por Baco que é omnipresente.

Levantemos bem nossas baquetas no ar
As Festas prosseguem agora bem sabemos
Rufem bem forte, não vale abrandar,
Nessas peles damos tudo o que temos
Amanhã será dia de novo madrigal
Preparada está já a minha lança
A maçã é fruto do amor, é o seu sinal
E só esse pomo meu coração amansa.

Rebentemos a pele dos bombos poderosos
Manchados pelo sangue nosso derramado
Porque estes dias são sempre gloriosos
São Dias Nicolinos já bem afamados.
Siga o cortejo com grande barulheira
Vamos embora já meus queridos manos
Estas baquetadas não serão as derradeiras
Firmes estaremos aqui todos os anos!

In Traditione Nomine et Urbe Corde,
Carlos Barroso Machado