Morreu António Jesus, antigo guarda-redes do Vitória (vídeos)

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O antigo guarda-redes do Vitória e actualmente técnico do Sp. Espinho, António Jesus, faleceu este domingo aos 55 anos, vítima de um ataque cardíaco.

O treinador tinha orientado a sua equipa poucas horas antes, no empate frente ao Boavista (1-1) e quando chegava a casa, por volta das 20 horas, caiu na rua fulminado por um ataque cardíaco. Uma equipa do INEM ainda tentou reanimá-lo, mas quando chegou ao hospital de Espinho já se encontrava sem vida.

Como guarda-redes, António Jesus Pereira defendeu as cores do Vitória durante dez épocas nas décadas de 80 e 90, contando no seu currículo sete internacionalizações pela Selecção Nacional e ainda passagens por Lourosa, FC Porto, Beira-Mar, Varzim, Leixões e Chaves.

Actualmente era treinador do Sp. Espinho, tendo orientado clubes como o P. Ferreira, Chaves, Covilhã e Tondela e feito ainda parte da equipa técnica do Vitória na época 2004/2005.

| Vídeo com os melhores momentos editado pelo sócio do Vitória, Pedro Ribeiro |

A imagem que muitos vitorianos guardam de Jesus é a defesa de uma grande penalidade, frente ao Atlético de Madrid, na extinta Taça UEFA, em 1986-87.

Percurso e história de António Jesus

"Um homem que joga durante 10 temporadas com a camisola do Vitoria seria sempre considerado uma grande glória do passado, mas na verdade, alem do longo tempo em que nos representou, Jesus marcou o clube, foi seu capitão de equipa e esteve presente em muitas e muitas jornadas de glória do Vitoria Sport Clube. Jesus disputou mais de 300 jogos na principal liga portuguesa de futebol, dos quais mais de 200 foram ao serviço do Vitoria, pelo que se tornam indissociáveis a carreira de Jesus e a história do clube mais representativo da cidade de Guimarães. Representou ainda o clube em vários jogos das competições europeias, bem como a Selecção Nacional de Portugal.

António Jesus Pereira, nasceu na cidade de Espinho em 11 de Fevereiro de 1955, e foi no clube da sua terra natal que deu os primeiros pontapés na bola. De novo notava-se que o seu ponto forte não seria propriamente os pés, mas sim as mãos, pelo que optou pela posição de Guarda-redes, aquela que o viria a consagrar no futebol nacional. Nos juvenis do Sp. Espinho, desde cedo despertou a cobiça dos olheiros que vagueavam pelos campos de futebol e ainda nessa mesma categoria vai para o FC Porto, corria a temporada de 1971/72. O restante percurso de formação é completado no FC Porto, onde se sagraria campeão nacional nos escalões de Juvenis e de Juniores.

Ainda contratualmente ligado ao FC Porto, vai a título de empréstimo para o Lourosa em 1973/74 por duas temporadas, regressando à casa mãe já na temporada de 1975/76, onde fez parte do plantel principal da formação portista. Seguiu-se duas temporadas no Beira-Mar e em 1978/79 chega à cidade da Povoa de Varzim, com 23 anos, para representar o Varzim SC. Manteve-se ao serviço dos poveiros durante 3 épocas consecutivas, onde alcançou logo na 1ª época um brilhante 5º lugar no Campeonato Nacional da 1ª Divisão, onde ficaram conhecidos os “Lobos do Mar” da Povoa do Varzim. Uma grave crise financeira que acabou por afectar o desempenho da formação varzinista na temporada 1980/81 motivando a sua à descida à 2ª Divisão Nacional.

Pese embora o amargo resultado colectivo obtido nessa temporada ao serviço do Varzim SC, as exibições protagonizadas por Jesus ao longo da época despertaram a atenção de José Maria Pedroto, técnico do Vitoria, que entretanto já o conhecia das camadas jovens do FC Porto, de tal modo que o contratou para ser incluído no plantel vitoriano para a época 1981/82 e em primeira linha ser o suplente do já conceituado Vítor Damas. Contudo, fruto da sua enorme potencialidade, Jesus disputa taco a taco a camisola n.º 1 com Damas durante toda a temporada, de forma tal que consegue efectivamente tornar-se o dono das redes vitorianas, alcançando merecidamente a titularidade.

É uma temporada de grande sucesso vitoriano com uma meritória classificação no 4º lugar do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, mas que infelizmente se afigurou insuficiente para o tão almejado apuramento para uma competição europeia. Esse desiderato apenas viria a ser alcançado na temporada seguinte, já com Manuel José ao leme. Sucede que, se na 1ª temporada em Guimarães foi partilhando a titularidade da baliza do Vitoria com Vítor Damas, nesta segunda temporada foi sempre suplente de Silvino, apenas anotando a presença num jogo do campeonato nacional desse ano. Silvino não lhe deu qualquer chance!

Na 3ª temporada em Guimarães inicia a época novamente como suplente de Silvino, mantendo-se a situação que vinha da época anterior, contudo, fruto de algumas más exibições daquele titular, Jesus é chamado ao posto na equipa principal e assegura a titularidade da baliza do Vitoria. Mas a temporada seguinte traz-lhe um novo concorrente de peso, o jovem cabo verdiano Neno, que vem cedido pelo Benfica no âmbito da transferência de Nivaldo do Vitoria para o clube da Luz.

Nesta temporada, acontece exactamente o inverso daquilo que aconteceu na época anterior. Raymond Goethals, treinador do Vitoria para a época 1984/85, entrega a Jesus a titularidade da baliza do Vitoria, que mais tarde viria a perder para o Neno.

Só apenas na época 1985/86, já com falecido António Morais no comando técnico, é que Jesus agarra definitivamente a titularidade da baliza do Vitoria, não dando qualquer veleidade aos seus companheiros concorrentes ao lugar. A partir desta época Jesus dá inicio a uma série ininterrupta de 3 temporadas sempre como titular do Vitoria em todos os jogos disputados no campeonato nacional da 1ª Divisão.

Demonstra e convence tudo e todos da sua qualidade. Revela-se um Guarda-redes de pequena estatura, com os seus 173 cm de altura, mas de enormes reflexos e agilidade felina. A sua trajectória alternando a titularidade com o banco de suplentes na equipa vitoriana nas primeiras 4 temporadas, dará lugar a uma posição cativa no onze base do Vitoria. Tornando-se ainda em 1986/87, dado o seu carisma e personalidade, no capitão da formação vimaranense.

Que boas recordações daquele tempo. Muitas vezes dou por mim a relembrar aquela cena gravada na minha memória de ver a equipa do Vitoria a entrar em campo com o seu capitão Jesus a comandar os restantes companheiros, trazendo nas suas mãos, de um lado o par de luvas necessárias ao oficio e do outro um ursinho de peluche branco que trazia o cachecol do Vitoria atado. Mas não me recordo só da imagem. E quem não se lembra daquele som de fundo que acompanhava os últimos alongamentos ou corridas dos jogadores antes do inicio da partida no Estádio Municipal de Guimarães. Em que se ouvia: “A Comissão de Fundos para um Vitoria Maior, apresenta a constituição das equipas: Com o n.º 1 Jesus, que também é o capitão, com o n.º 2 Costeado, com o n.º 3 Miguel...”. Bons tempos, sem dúvida.

E a sua inconfundível fisionomia? E o seu traje? O seu bigodinho. E aquele boné que trazia nos jogos disputados em tardes solarengas. E quando ele pequenino gritava - quem nem um desalmado - para as torres como eram Miguel e Nene, quando estes metiam agua na defesa?

A temporada 86/87 é também para Jesus um momento alto. Nessa temporada tem exibições espantosas e memoráveis, a título de exemplo expressa-se aquela majestosa exibição em pleno Estádio Vicente Calderon, em Madrid, frente ao Atlético de Madrid onde até uma grande penalidade defendeu. Jesus voava dentro dos postes, e fora deles, apesar da sua pequena estatura, sabia impor a sua presença.

Esta temporada foi também marcante em termos individuais para Jesus, porque seria o ano em que se tornaria Internacional A pela Selecção Nacional de Portugal.

Jesus já contabilizava uma internacionalização pela Selecção Olímpica, quando defendeu a baliza de Portugal, num jogo disputado em Israel, no dia 30 de Outubro de 1983, em que a turma lusa saiu derrotada por 0-1.

À principal Selecção Nacional chegou no dia 4 de Fevereiro de 1987, num amigável disputado no Estádio 1º Maio em Braga, contra a congénere Belga, em que Portugal venceu por 1-0. A Selecção de Portugal “pós Saltillo”, comandada por Juca e Ruy Seabra, que teve em Jesus o Guarda-redes escolhido para titular da equipa das quinas durante todo o ano de 1987, disputando-se na altura a classificação para o Campeonato da Europa de 1988, torneio que se viria a realizar na Alemanha. Defrontou a Selecção de Malta e a Itália por duas vezes, em Lisboa e em Milão, a Suécia e a Suiça. Na memória fica o jogo disputado em San Siro, contra a Itália, com a camisola da Selecção, em que Jesus fez uma grande exibição, apesar da derrota portuguesa. O último jogo disputado por Jesus com a camisola de Portugal foi em Malta, no dia 20 de Dezembro de 1987, na vitória portuguesa por 1-0. Jesus contabilizou assim 7 internacionalizações A e 1 Olímpica. Contemporâneos da Selecção portuguesa naquela altura foram outros jogadores vitorianos. A equipa do Vitoria era quase meia selecção. Assim, juntamente com Jesus, estavam Costeado, Miguel, Nascimento, Carvalho e Adão.

Na temporada de 1987/88, Jesus manteve-se titular na equipa principal do Vitoria. Foi uma época extremamente difícil, em que o clube viveu alguma instabilidade, apenas conseguindo salvar-se da descida de divisão na recta final do campeonato. Contudo, no final dessa temporada o Vitoria alcança o privilégio de disputar a final da Taça de Portugal, contra o FC Porto, campeão nacional, o que lhe permite mais uma vez, e por esta via, aceder às competições europeias. O Vitoria deixou pelo caminho o Murça (7-0), o Felgueiras (1-0), Ermesinde (3-1), Marítimo (5-2), Gil Vicente (2-0) e Portimonense (2-1). Na final disputada no Estádio do Jamor, na tarde do dia 16 de Junho de 1988, António Jesus foi o Guarda-redes titular e capitão da equipa. Foi a única final da Taça de Portugal em que Jesus esteve presente. O jogo foi apitado pelo famosíssimo e já falecido arbitro Vítor Correia, responsável por 7 jogos de interdição do nosso estádio, aquando de uma recepção ao Boavista. O FC Porto adversário nessa final, acabou por vencer o encontro por 1-0, com golo de Jaime Magalhães, sagrando-se assim vencedor da Taça de Portugal.

No final da temporada 87/88, Jesus não chega a entendimento com o Presidente do Vitoria, Pimenta Machado, para a renovação do seu contrato, acabando por deixar Guimarães após 7 temporadas consecutivas ao serviço do Vitoria. Esse abandono deixou sempre muitos sócios em desacordo com o Presidente, criticando-o por não ter renovado o contrato ao capitão da equipa. Contudo, esse foi um ano que a Direcção entendeu renovar o plantel, acabando por abandonar Guimarães vários jogadores que até ai haviam sido marcantes.

Retorna a Guimarães na época de 1990/91 e afirma-se novamente o titular da baliza do Vitoria apesar dos 35 anos de idade. Esta temporada em Guimarães foi pautada pela mediania, acabando o Vitoria classificado na 9ª posição. Seguem-se mais duas temporadas na cidade berço (1991/92 e 1992/93) nas quais foi titular, mas já não da forma indiscutível que havia sido até então, dividindo com Madureira a camisola n.º 1 do Vitoria. Em 1991/92 é treinado pelo técnico João Alves, alcançando o Vitoria mais um classificação para as provas internacionais e no seu ultimo ano reencontra o treinador brasileiro Marinho Peres. Deixa Guimarães em 1993, completando assim o segundo ciclo como Guarda-redes do Vitoria e capitão de equipa, totalizando as já mencionadas 10 temporadas com o Rei D. Afonso Henriques ao peito." 

Fonte: Excerto e foto retirados do site «Glórias do Passado»

[artigo originalmente publicado às 01h52 e actualizado às 16h09]